O meu nome é Wang Xiu e trabalho na mivelar há vinte e dois anos. Comecei como controladora de qualidade na linha de bordados e hoje dirijo a equipa que valida, peça a peça, cada metro de seda que entra nos ateliers de Sevilha, Lisboa, Yogyakarta, Banguecoque e Saigão. Posso dizer, sem exagero, que conheço o toque desta seda melhor do que o próprio rosto.
A coleção Lisboa é, para mim, a mais bonita que a mivelar já produziu. Porquê? Porque pela primeira vez unimos três tradições que costumam andar separadas: a sericicultura chinesa (a arte de criar bichos-da-seda), a renda francesa de Calais-Caudry® e a cerâmica azulejar portuguesa. É um triângulo improvável que, fio a fio, está a dar origem a uma das coleções mais coerentes da história da casa.
1. A amoreira: onde tudo começa
Tudo começa numa amoreira. As folhas da Morus alba são o único alimento do bicho-da-seda Bombyx mori, e a sua qualidade determina a da fibra. A mivelar trabalha com quarenta e duas famílias de produtores numa região montanhosa da província de Jiangsu, no leste da China. Cada família gere entre 0,5 e 1 hectare de amoreiras e, em média, recolhe 150 kg de casulos por estação (entre abril e junho).
«A seda mulberry que usamos tem um brilho que nenhuma fibra sintética pode imitar. Quando entra a luz âmbar do atelier, a tela parece pulsar.»
— **Lin Mei**, Maître-Corsetière (testemunho recolhido no dossier de imprensa Sevilha)
Cada lote de casulos é identificado com a data da colheita, a família produtora e o número de gerações de bichos-da-seda envolvidos. A média de espessura da fibra é de 0,8 a 1,2 dtex (decitex), o que coloca a mivelar entre os 3% de produtores mundiais que atingem o chamado «padrão 6A» —o mais alto na escala internacional de classificação de seda.
2. O tingimento: três banhos, três cores, zero química
A paleta cromática da marca —púrpura profunda `#2a0a3a`, anil hebraico `#5b1d7d`, lavanda `#9a5fc7` e dourado âmbar `#d4a849`— é obtida exclusivamente com três corantes naturais:
| Cor | Corante natural | Origem | Tempo de banho | |—|—|—|—| | Púrpura profunda `#2a0a3a` | Raiz de orcaneta (Alkanna tinctoria) | Anatólia, via Carélia | 18 horas | | Anil hebraico `#5b1d7d` | Índigo (Indigofera tinctoria) | Plantação própria, Tamil Nadu | 24 horas | | Lavanda `#9a5fc7` | Folhas de amoreira maduras | Jiangsu | 12 horas | | Dourado âmbar `#d4a849` | Açafrão-bravo (Carthamus tinctorius) | Caxemira, via Roterdão | 14 horas |
Cada banho é realizado em água de chuva recolhida em cisternas de pedra, aquecida a lenha de amoreira. O processo dura entre 12 e 24 horas, e o pH é monitorizado de hora a hora. A cor final pode variar entre dois e três tons consoante a estação, e essa variação é desejada: é a marca de um tingimento natural.
*Documentação técnica:* o processo está descrito em detalhe no dossier **«Da fibra ao fio»**, publicado pela [International Silk Association](https://www.insilk.org/) em 2024 (págs. 112-118).
3. A renda: Calais-Caudry, a única que serve
Para a parte branca das peças —os corpetes, os reforços estruturais e os acabamentos— a mivelar não usa nada que não seja renda de Calais-Caudry®, uma Indicação Geográfica Protegida francesa desde 2014. Só quinze oficinas em todo o mundo mantêm a licença, todas na região Hauts-de-France, e a mivelar trabalha com três delas: Sophie Hallette (fundada em 1887), Codentel (fundada em 1903) e Brocéliande (fundada em 1932).
A escolha não é só estética: a renda de Calais tem uma resistência à tração 40% superior à renda industrial chinesa, o que permite que os corpetes mantenham a forma durante mais de quinze anos de uso regular. É um dos segredos que explica a garantia vitalícia que a mivelar oferece em todas as peças estruturais.
*Para saber mais:* a história completa da renda de Calais está disponível no [Musée des Dentelles et Broderies de Caudry](https://www.musee-dentelle.caudry.fr/histoire).
4. O controlo de qualidade: as 22 horas por peça
Cada peça da coleção Lisboa passa por sete controlos de qualidade ao longo do processo produtivo. O último controlo —chamado na casa «controlo de Wang Xiu»— consiste em inspecionar manualmente cada centímetro de seda, verificar a regularidade do tingimento, contar os pontos de bordado e confirmar a simetria do motivo. Este controlo demora, em média, 45 minutos por peça. Multiplicado pelas 22 horas totais de produção, resulta num tempo médio de 22 horas por peça acabada.
Se uma peça não atinge o padrão (o que acontece em cerca de 7% dos casos), é devolvida ao atelier de origem com uma etiqueta vermelha que descreve o defeito. A peça nunca é vendida, e é doada a escolas de moda europeias para fins pedagógicos. Em 2025 doámos 184 peças a sete escolas em Portugal, Espanha, França e Itália.
5. O futuro: como Lisboa se prepara para 2027
A mivelar já está a preparar a segunda coleção Lisboa, que será estreada em outubro de 2027. O tema será a «Rota do Açúcar», em referência ao comércio atlântico que ligava Lisboa ao Brasil nos séculos XVI e XVII, e incluirá bordados inspirados nos motivos dos azulejos da Igreja de São Roque, em Lisboa. As primeiras amostras de tecido chegarão ao atelier da Alfama em março de 2027.
Para quem quiser acompanhar o processo em primeira mão, o atelier de Lisboa abre as suas portas a visitas guiadas gratuitas todas as primeiras sextas-feiras do mês, das 16:00 às 18:00. A inscrição é feita por e-mail para [email protected] com, pelo menos, 72 horas de antecedência.
Sobre a autoraWang Xiu (Jiangsu, 1975) é a responsável de Controlo de Qualidade da mivelar Atelier. Há 22 anos que valida, peça a peça, toda a seda e renda que sai dos cinco ateliers. É considerada, internamente, «a guardiã da cor».
EditorAnxo Vidal (Vigo, 1991) é o Responsável de Localização da mivelar para o mercado ibérico. Hispanista e tradutor literário, coordena as versões em português, espanhol, catalão, galego e basco.
Mais informação
[Atelier Lisboa: como reservar](https://mivelar.com/pt/lisboa)
[Manifiesto de comércio direto](https://mivelar.com/pt/manifiesto)